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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Homicídio na Yale University: caso Annie Le


Desaparecida desde o dia 8 de setembro, o corpo da estudante Annie Le foi encontrado no último domingo (13 de setembro) entre duas paredes de um porão do laboratório onde trabalhava. Os exames periciais preliminares revelaram que a morte de Le se deu por asfixia por constrição do pescoço na modalidade de estrangulamento (o relatório do legista traz os dizeres "traumatic asphyxia due to neck compression").

O estragulamento, como modalidade de asfixia mecânica, se caracteriza pelo uso de um laço ao redor do pescoço da vítima em que a força que gera a constrição é diversa do peso do corpo da vítima. É, basicamente, o que distingue o enforcamento do estrangulamento: ambos se processam por um laço, mas o enforcamento, ao contrário do estrangulamento, tem por energia constritiva o peso do corpo da própria vítima. Em qualquer dos casos de asfixia por constrição do pescoço, as petéquias já mencionadas neste blog (neste post) são frequentes.

O principal suspeito era um técnico que trabalhava no mesmo laboratório que a vítima, chamado Raymond Clark III. O suspeito apresentava marcas de arranhões nos braços e falhou no teste do polígrafo (o famigerado "detector de mentiras"). Clark alegava que os arranhões foram causados por um gato de estimação. Como averiguar se Ray Clark diz a verdade?

Sim, os policiais confiaram no tal polígrafo. Mas havia outros meios? Penso que sim. Se Clark apresentava ferimentos nos braços e se estes foram produzidos pela ação de defesa da vítima, então Le (a vítima) deve ter arranhado seu agressor ao tentar se livrar do estrangulamento. Seria possível, portanto, remover as sujidades das unhas do cadáver da vítima, extrair DNA destes resíduos e compará-los com o perfil genético do suspeito. Repare que esse procedimento é viável pois, ao arranhá-lo, a vítima remove fragmentos de tecido do agressor que ficam aderidos em baixo de suas unhas. E nestes tecidos há células nucleadas no agressor, permitindo a obtenção de seu material genético. É provável que os peritos de New Haven tenham usado essa abordagem, apesar de não divulgada.



Em tempo: quando mencionei que os órgãos periciais deveriam se aproximar dos meios acadêmicos em posts anteriores, me referi à troca de informações técnico-científicas. E não aos crimes invadirem o espaço acadêmico. Não custa esclarecer.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Petéquias? O que é isso?

Alguns leitores deste singelo blog sugeriram um post sobre a formação das petéquias. Assim o faremos, mas por estar navegando em mares do conhecimento alheios ao da criminalística, tive de adicionar o termo “medicina legal” no subtítulo deste blog.


As petéquias nada mais são do que equimoses puntiformes. Equimose é o nome dado ao sangue extravasado dos vasos, infiltrado nas malhas dos tecidos e ali coagulado. Podem ser formar logo após um evento traumático ou horas depois. Além disso, não se manifestam obrigatoriamente na sede da lesão.

As pequenas manchas que aparecem na conjuntiva palpebral, freqüentes em casos de asfixia mecânica, são exemples de petéquias. Nesses casos, elas também podem aparecer no “branco dos olhos” ou, com menor freqüência, em outras partes do corpo.

Mas como são formadas as petéquias na conjuntiva palpebral? Acredita-se que sua formação seja o resultado da ruptura de vênulas e capilares quando o retorno no sangue venoso para o coração é obstruído, enquanto o fluxo arterial para a cabeça é mantido. Induzindo a afirmação, é necessário menos pressão para obstruir uma veia jugular (que possui paredes finas e baixa pressão sanguínea) do que uma artéria carótida (de paredes grossas e musculosas, com alta pressão sanguínea). Então, quando um pescoço é pressionado moderadamente, é provável que o fluxo arterial continue fluindo, enquanto o fluxo venoso é interrompido. Essa obstrução seletiva dos vasos maiores resulta no aumento da pressão em pequenos vasos da cabeça, o que eventualmente leva a ruptura destes últimos.

(Parênteses de lembrete: a veia jugular tem fluxo sanguíneo no sentido cabeça-coração, ao passo que as artérias carótidas têm fluxo inverso. Tanto carótidas, quando a jugular passam pelo pescoço. Geralmente, veias possuem paredes finas e artérias paredes grossas).

Vale ressaltar, entretanto, que a presença de petéquias, sozinhas, não é diagnóstica de asfixia mecânica. As mesmas petéquias podem aparecer em casos de morte por doenças cardíacas, em vítimas de queimadura ou em pessoas com deficiência no processo de coagulação sanguínea. Daí a importância de associar o achado das petéquias com outras características encontradas na necropsia e no levantamento de local de crime.

Para saber mais sobre a associação de petéquias às asfixias, recomendo a leitura do artigo de Ely e Hirsch entitulado Asphyxial deaths and petechiae: a review (2000, Journal of Forensic Science 45: 1274-7).