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domingo, 12 de junho de 2011

iPhone APP: Intervalo Pós-Morte

Após a recente compra de um iPhone, tenho encontrado alguns aplicativos interessantes para o trabalho pericial. Estes APPs certamente estão difundindo o conhecimento das ciëncias forenses e, ao meu ver, terão dois efeitos: 1. Imenso auxilio ao Perito e 2. Imenso auxílio aos assistentes técnicos. Desta forma, faz-se necessário uma difusão deste conhecimento entre os Peritos para que não fiquemos atrás do avanço do conhecimento e das formas de acessá-los. Este é o primeiro de uma série de posts que farei baseado na "APP Store" da Apple. Aplicativos como estes certamente podem ser encontrados para outras plataformas como Android, Symbian, etc.... por aqui pelo menos os senhores vão saber do potencial de um smartphone para o trabalho pericial.




"Time of Death: CSI Forensic Calculator"(Medicon Apps) http://mediconapps.com

Custo: US$ 0,99

Tamanho: 1,1MB

Descrição: Estima o intervalo Pós-Morte recente baseado nos valores de temperatura retal e ambiental, peso/altura da vítima e as condições de exposição do corpo. Baseia-se no algoritmo desenvolvido pelo Dr. Claus Henssge de ampla utilização no mundo todo. (Não testei, pois fiquei satisfeito com o APP abaixo que é gratuito)


"SHADOW Time of Death"(POHN IT - Consulting GmbH) Link

Custo: Grátis (Versão LITE) ou US$ (Versão completa)

Tamanho: 4,3MB

Descrição: Estima o intervalo Pós-Morte baseado nos valores de temperatura retal e ambiental, peso/altura da vítima e as condições de exposição do corpo. Baseia-se no algoritmo desenvolvido pelo Dr. Claus Henssge de ampla utilização no mundo todo. Este aplicativo eu testei e gostei bastante, principalmente porque ele tem desvio padrão e mostra um horário máximo e mínimo de quando o evento morte aconteceu. A SHADOW lançou este APP juntamente com outro de Antropologia para divulgar o seu APP pago, que discutirei no próximo post sobre o assunto.


Lógico, isto não substitui o Perito, não precisa nem dizer né?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Capacitação em Entomologia Forense

Um cadáver é encontrado. A perícia chega ao local. Já sem vida há alguns dias, o corpo da vítima está em processo de decomposição e sobre ele estão larvas se alimentando de sua carne. A perícia recolhe uma amostra das larvas. Após análise destes vestígios biológicos conclui que a morte se deu a não menos que oito dias.


O trecho supra poderia ter sido extraído de um episódio CSI: Crime Scene Investigation, em que Gil Grissom, entomólogo do seriado, examina insetos recolhidos em locais de crime. Mas esse conhecimento vem sendo aplicado aqui em terra tupiniquim e de maneira cada vez mais notória. A aplicabilidade da entomologia à perícia criminal depende de alguns fatores. O primeiro deles é reconhecer os insetos presentes em um local de crime como um vestígio. Algumas outras questões devem ser de conhecimento dos policiais que freqüentam o local de crime, como o que fazer (ou não fazer), o que e como coletar e preservar, que tipo de informação os insetos podem nos dar, entre outras. É impressionante a quantidade e diversidade de informações que um inseto pode trazer à investigação criminal.

Visando dar conhecimento a aplicação do estudo dos insetos à criminalística, o SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública), em convênio com a ACADEPOL/SP (Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra”), está oferecendo um curso de 40h/aula em “Capacitação de Policiais Civis em Entomologia Forense”. O grande diferencial do curso é contar com profissionais de ambos os meios (acadêmico e pericial) no corpo docente. Peritos criminais com formação em áreas biológicas e grande interesse em entomologia expõe suas experiências práticas, demonstrando a aplicação deste conhecimento à criminalística. Entre os acadêmicos, despontam professores vinculados à Unicamp, Unesp/Rio Claro e USP, abordando aspectos taxonômicos e o que se tem pesquisado nesta temática .

No total, serão oferecidos 40 cursos em todo o estado de São Paulo. Quatro turmas já foram formadas (uma na capital, duas em Bauru e uma em Campinas) e a quinta turma está prevista para o período de 15 a 19 de março de 2010 na própria sede da ACADEPOL/SP. O período de inscrição será publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo de 25 de fevereiro de 2010. Assim que publicado o período de inscrição desta e das próximas turmas, vou postar nos comentários deste post.

Recomendo o curso a todos. O conteúdo é muito bom, além da abordagem teórico-prática desta área tão consagrada e importante na perícia internacional.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

21 gramas: o peso da alma?

Alguns fenômenos cadavéricos são tão intrigantes que, no passado, foram motivo de análise sobrenatural. Profissionais de reputação ilibada fizeram afirmações que hoje incitariam o riso de muita gente. A desidratação tegumentar (ou dessecação) é um desses fenômenos e exploraremos uma conclusão falaciosa dela historicamente derivada: o peso da alma.

No início do século XX, um médico americano de nome Duncan MacDougall quis provar que a alma exite. Pensou que, se de fato exite a alma, ela deve ser material. Sendo constituída de matéria, a alma deve ter massa e, consequentemente, peso. Se tem peso, deve ser possível medí-lo. Com base nesse raciocínio, o Dr. MacDougall mediu o peso de seis pessoas antes e depois de morrer e reparou que o fiel da balança sempre tendia para a queda do peso do já cadáver paciente.

O primeiro era um tuberculoso prestes a morrer. Segundo o Dr. MacDougall, logo após a morte, o inidivíduo perdeu 21g de sua massa, portanto esse deveria ser o peso da alma (uso o termo "peso" aqui lato sensu, sem a conotação de força física). O segundo paciente teria perdido 46g, ao passo que o terceiro perdeu 14g imediatamente e mais 28g após alguns minutos. Então, se interpretarmos esses dados, concluiríamos que a alma de pessoas diferente tem massas diferentes, certo? E ainda: algumas almas deixam o corpo aos poucos (vide o terceiro paciente). A interpretação dada ao autor do experimento foi que essas diferenças se relacionavam ao temperamento de cada um: o terceiro paciente seria apático (para não dizer lerdo) e sua alma teria permanecido em suspensão sobre o corpo até notar que estava livre.

Talvez Duncan MacDougall não conhecesse os fenômenos cadavéricos abióticos. O corpo sem vida perde água para o ambiente a uma taxa que varia com o tempo: quanto maior o tempo decorrido do evento morte, mais baixa essa taxa. Logo, a perda de massa que ele observou provavelmente decorreu da perda de água por dessecação tegumentar. Em indivíduos com temperatura corporal aumentada ante mortem, como é comum nas infecções e em paciente hospitalizados, a desidratação ocorre mais rapidamente. Será que a diferença de peso medida não era decorrente da dessecação?

Dr. MacDougall diria que não. Ele realizou experimentos semelhantes com cachorros e não constatou qualquer variação no peso. Concluiu que homens têm alma, cães não têm. Mas os cães têm o tegumento recoberto por pêlos e não possuem glândulas sudoríparas. A taxa de dessecação em seus corpos certamente é mais lenta que em seres humanos.

Outras questões pertinentes:

1) a morte não é um instante no tempo, mas um processo que se estendo por algum período. A diferença de massa, portanto, decorre da desidratação do corpo durante o processo de morte;

2) como argumentou um colega legista, quando da morte, os esfíncteres relaxam. Seria possível que gases intestinais tivessem sido liberados logo após a morte. Como todo gás tem peso, a liberação desses gases acarretaria perda de peso, ainda que pequena (que tal 21g?).

Duncan MacDougall perdeu seus 21g em 16 de outubro de 1920. Neste dia, o The New York Times publicou sua morte no obituário com o título "Ele pesou a alma humana".

Para os curiosos, segue abaixo um link com o texto original do artigo publicado em 1907 pelo Dr. MacDougall sobre a hipótese da materialidade da alma:

MacDougall, D. 1907. Hypothesis Concerning Soul Substance, Together with Experimental Evidence of the Existence of Such Substance. Journal of the American Society for Psychical Research 5(1): 237-275.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ah, sim... o E.T. do Panamá

Nesta última semana, muitos sites da net divulgaram ter encontrado o corpo de um E.T. no Panamá. Até o Fantástico, programa da Rede Globo, apresentou uma reportagem sobre o assunto, no quadro detetive virtual. Segundo um canal de TV do Panamá, a criatura foi encontrada por um grupo de crianças, teria saido de uma caverna e agarrado nas pernas de uma delas. Nesta circunstância, ainda segundo o relato dos juvenis, eles teriam matado a criatura a pauladas e pedradas antes de fotografá-la.

Observem as fotos da criatura tiradas pelas crianças:


Vamos aos fatos:

1) Como já mencionado em muitos sites que noticiaram a tal aparição, a criatura tem todas as características de um mamífero conhecido por bicho-preguiça, provavelmente da espécie Choloepus hoffmanni;

2) Algumas pessoas questionaram o ventre dilatado do animal. É provável que o corpo esteja entrando no segundo período da putrefação, conhecido por período gasoso. Ao morrer, as bactérias que compões o trato digestório dos mamíferos continuam sua atividade, produzindo gases. Como não têm por onde sair, os gases se acumulam no interior do corpo, dilatando o ventre;

3) O primeiro período da putrefação em cadáveres é conhecido por periodo colorimétrico e tem início com a formação de uma mancha esverdeada no abdomen. É a chamada mancha verde abdominal. Ao repara na fotografia superior esquerda, é possível verificar tal mancha, ainda que difusa, no ventre do corpo do animal;

4) Em humanos, a mancha verde abdominal se forma perto da 20h após a morte e o período gasoso se inicia após alguns dias de óbito. Suponhamos que no corpo de uma preguiça (por ter menos massa corpórea e maior concentração de bactérias no trato digestório) esses fenômenos aconteçam em metade do tempo esperado para cadáveres humanos. Isso implica em a vítima (a preguiça, no caso) ter vindo à morte entre 10h e uns 2 dias anteriores as fotos. Daí surgem as hipóteses: a) as crianças mataram o bicho e voltaram mais de 10h depois para fotografá-lo; ou b) as crianças estão mentindo;

5) Se estivessem no Brasil e estivessem falando a verdade, tais crianças teriam cometido crime contra a fauna (previsto em um dos capítulos da Lei de Crimes Ambientais - 9605/98), já que Choloepus hoffmanni é um animal silvestre. Opppss... tecnicamente, crianças não cometem crime, mas sim ato infracional. Portanto, apesar da conduta tipificada como crime, os juvenis teriam cometido um ato infracional;

6) Como sabemos que eles estão mentindo (graças aos nosso conhecimentos sobre fenômenos cadavéricos), eles não cometeram se quer ato infracional, já que falsa comunicação de encontro de criatura extra terrestre (ainda) não é crime no Brasil.

Como vemos, os conhecimentos pertinentes à tanatologia (estudo da morte e suas repercussões) são interessantes não apenas para o levantamento de informações relevantes à investigação criminal. Mas também para desmarcarar criancinhas confusas, que misturarm ficção com realidade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

De perna para o ar

Quando um cadáver é encontrado, um dos questionamentos que se deve fazer é se aquele indivíduo morreu onde foi encontrado ou se ali foi colocado depois de morto. Apesar de obvia a importância dessa informação, nem sempre ela é prontamente respondida. E uma resposta precisa deve levar em conta conhecimentos pertinentes ao levantamento de local de crime e, por que não, de medicina legal.

Recentemente, durante um plantão, fui acionado à comparecer em um determinado endereço onde haviam encontrado um cadáver. Imediatamente, fui ao local acompanhado do fotógrafo técnico-pericial.

Era uma via pública de um bairro residencial. No pavimento asfáltico, havia um cadáver. Estava lá o corpo estendido no chão, em decúbito ventral, com a camisa ensangüentada e embolada dorsalmente a altura pouco abaixo dos ombros. As costas e o cabelo (porção posterior) apresentavam sujidades com areia. Quanto aos ferimentos, havia alguns pérfuro-incisos (um no dorso e outros no pescoço), além de escoriações nas costas (orientadas longitudinalmente ao corpo). Era um local pobre em vestígios. Uma única e pequena mancha de sangue e nada mais ao redor que fosse digno de nota.

Observando o corpo, algo me chamou a atenção: a perna direita tinha o joelho parcialmente flexionado e estava levantada no ar, sem qualquer apoio. Como o cadáver já estava em rigor mortis, a tal perna ali permanecia, parada, como se não houvesse gravidade. Veja a foto abaixo:

Repare na posição da perna direita. Ao fundo, há de se notar o quanto o ser humano é curioso quando o assunto é um cadáver, reparem quantos pés ali estão.

E então? Aquele indivíduo morrera naquele local? É provável que não. Vejo que o corpo foi transportado para aquele local e foi ali "desovado". Mas como justificar essa afirmação?

Como já vimos em outro post, a rigidez cadavérica, ao se estabelecer, "congela" o corpo na posição em que ele estava. É provável que tal corpo estivesse em decúbito dorsal (ou seja, de barriga para cima) e com a perna direita flexionada em um plano pouco abaixo do corpo quando o rigor se estabeleceu. Ao ser colocado em outra posição, a perna manteve sua posição original. Outra hipótese, bem menos provável, seria "a revogação da lei da gravidade para pernas direitas de cadáveres", como ouvi um colega ironicamente comentar.

Outras características que suportam a hipótese de transporte post mortem é o fato de não haver o sangramento vultoso no local. Ferimentos pérfuso-incisos tendem a ser altamente hemorrágicos. Logo, se estes tivessem sido produzidos no local de encontro do corpo, haveria grande quantidade de sangue pelo pavimento, o que não foi observado.

Mais uma: a areia encontrada nas costas e no cabelo (parte de trás da cabeça), associada a escoriação nas costas e a posição da camiseta (embolada na altura dos ombros), sugerem que alguém arrastou o corpo enquanto este estava em decúbito dorsal e num local cujo solo fosse arenoso. Nas redondezas em que foi encontrado o corpo, não foi encontrado nenhuma porção de solo exposto com característica arenosa.

domingo, 30 de agosto de 2009

Era o cheiro do cadáver...

Não há como negar que há muito o que ser pesquisado no campo das ciências forenses. Aliás, sempre haverá, pois o capítulo da humanidade intitulado "ciência" não é convencional, pois possui começo, mas não meio e fim. Já os recursos financeiros para investimentos, em ciência esses sim possuem fim (repare na dualidade do termo "fim" que, nesta colocação, pode representar tanto finalidade quanto final - sim, foi intencional). Sabendo desta limitação, onde se deveria investir?

Essa é uma pergunta relativamente recorrente nos meios acadêmicos. Especialmente por parte das agências financiadoras que decidem quais projetos receberão os limitados recur$o$. Mas existem nações mais privilegiadas que nosso país tropical neste sentido. Nesses, os investimentos em ciência e tecnologia não passam por tantos crivos.

Um exemplo disso é a iniciativa de Dan Sykes, pesquisador da Pennsylvania State University. Ele se propôs a estudar compostos oriundos da decomposição cadavérica, visando mapear em que situações (inclusive ambientais) e em que ordem eles aparecem. A idéia do pesquisador é, no futuro, desenvolver um sensor eletrônico capaz de identificar tais compostos em pequenas concentrações. Segundo o pesquisador, o "focinho eletrônico" ajudaria equipes de busca a localizar corpos em áreas de desastre em massa ou de ocultação de cadáver.

Meu questionamento é simples: por que desenvolver uma máquina "farejadora" se um cão faz isso tão bem e de graça? A habilidade dos cães farejadores foi inicialmente utilizada nas caçadas, quando localizavam e perseguiam a presa. Desde o século passado esses cães têm sido treinados a localizar drogas, explosivos, resquícios de sangue, acelerantes e cadáveres. O faro de um cão é não somente mais apurado, como também mais versátil que o de uma máquina. Penso que vai demorar muito até que um focinho eletrônico possa substituir as atribuições de um cão farejador.

Terra Indígena Capoto Jarina (MT) - Equipe do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal com cães farejadores auxilia na busca das vítimas do acidente do Boeing 737-800 da Gol. Mais de 350 pessoas, entre militares da Força Aérea Brasileira (FAB), do Exército, bombeiros e peritos do Instituto Médico Legal (IML), participam das buscas. Foto: Divulgação/FAB


Há de ser dar mérito, entretanto, aos objetivos da pesquisa do Dr. Dan Sykes. Apesar de não ser um grande avanço na localização de um cadáver, talvez o seja na estimativa do tempo de decomposição. É sabido, a exemplo, que a decomposição de corpos humanos gera compostos como indole, cadaverina e putrescina. Mas em que ordem? Claro, os processos químicos que geram tais compostos são influenciados por fatores ambientais e micro-ambientais, como temperatura, umidade, fauna cadavérica associada, entre outros. Essa abordagem, no entanto, me pareceu interessante. Que seja esse o início da formação de uma biblioteca de compostos oriundos da decomposição e de sua ordem de aparecimento.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Petéquias? O que é isso?

Alguns leitores deste singelo blog sugeriram um post sobre a formação das petéquias. Assim o faremos, mas por estar navegando em mares do conhecimento alheios ao da criminalística, tive de adicionar o termo “medicina legal” no subtítulo deste blog.


As petéquias nada mais são do que equimoses puntiformes. Equimose é o nome dado ao sangue extravasado dos vasos, infiltrado nas malhas dos tecidos e ali coagulado. Podem ser formar logo após um evento traumático ou horas depois. Além disso, não se manifestam obrigatoriamente na sede da lesão.

As pequenas manchas que aparecem na conjuntiva palpebral, freqüentes em casos de asfixia mecânica, são exemples de petéquias. Nesses casos, elas também podem aparecer no “branco dos olhos” ou, com menor freqüência, em outras partes do corpo.

Mas como são formadas as petéquias na conjuntiva palpebral? Acredita-se que sua formação seja o resultado da ruptura de vênulas e capilares quando o retorno no sangue venoso para o coração é obstruído, enquanto o fluxo arterial para a cabeça é mantido. Induzindo a afirmação, é necessário menos pressão para obstruir uma veia jugular (que possui paredes finas e baixa pressão sanguínea) do que uma artéria carótida (de paredes grossas e musculosas, com alta pressão sanguínea). Então, quando um pescoço é pressionado moderadamente, é provável que o fluxo arterial continue fluindo, enquanto o fluxo venoso é interrompido. Essa obstrução seletiva dos vasos maiores resulta no aumento da pressão em pequenos vasos da cabeça, o que eventualmente leva a ruptura destes últimos.

(Parênteses de lembrete: a veia jugular tem fluxo sanguíneo no sentido cabeça-coração, ao passo que as artérias carótidas têm fluxo inverso. Tanto carótidas, quando a jugular passam pelo pescoço. Geralmente, veias possuem paredes finas e artérias paredes grossas).

Vale ressaltar, entretanto, que a presença de petéquias, sozinhas, não é diagnóstica de asfixia mecânica. As mesmas petéquias podem aparecer em casos de morte por doenças cardíacas, em vítimas de queimadura ou em pessoas com deficiência no processo de coagulação sanguínea. Daí a importância de associar o achado das petéquias com outras características encontradas na necropsia e no levantamento de local de crime.

Para saber mais sobre a associação de petéquias às asfixias, recomendo a leitura do artigo de Ely e Hirsch entitulado Asphyxial deaths and petechiae: a review (2000, Journal of Forensic Science 45: 1274-7).

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sobre a rigidez cadavérica...

Para aqueles que já passaram pela experiência de mexer em um cadáver algumas horas depois da morte devem ter notado que ele se apresentava rígido, em um situação tal que é difícil muda-lo de posição (como flexionar uma de suas articulações).

Por mais surpreendente que isso possa parecer, muitas pessoas já mexeram em um cadáver. Calma. Não me refiro exclusivamente a um cadáver humano. Mas quando aquele seu cachorrinho morreu no seu quintal, alguém teve de removê-lo dali, certo? Para evitar fotos de cadáveres humanos, optei por exemplificar a rigidez cadavérica com a foto de dois peixes (veja ao lado). O da esquerda já atingiu a rigidez, ao passo que o da direita ainda não.

Como tive uma formação científica com mais ênfase nas biológicas, sempre me perguntei como esse fenômeno, chamado de rigor cadavérico (ou rigor mortis), se ocorria. Depois de começar a trabalhar com perícia criminal, me flagrei buscando respostas nesse sentido e encontrei algumas explicações. Descrevo aqui aquela que me fez mais sentido sob a ótica fisiológica e celular.

Pois bem, quando passei a procurar uma resposta convincente eu contava apenas com as seguintes informações sobre o processo:

1) o momento de início do rigor cadavérico pode variar com a temperatura ambiente, mas geralmente ocorre entre 2 e 4h após a morte e começa pelos músculos menores e por aqueles mais ativos antes da morte (há quem afirme que o fenômeno ocorre imediatamente após a morte em pessoas que entram em óbito em momentos de estresse físico e emocional extremos, mas são muito raros);

2) seu estado de rigidez máxima se estabelece por volta da 12a hora post mortem, cessando gradativamente até 36h da morte;

3) o rigor mortis pode ser prolongado por baixar temperaturas (há relatos de corpos em rigidez por 16 a 28 dias quando mantidos à 4 graus Celsius).

Já era de se imaginar que a rigidez cadavérica tivesse algo a ver com contração muscular. Afinal, o que mantém o corpo rígido só poderia ser uma forte contração dos músculos esqueléticos. Mas o que acarretaria tão tremenda e generalizada contração após óbito? Para responder a essa pergunta, é necessário ter alguma idéia dos mecanismos celulares envolvidos na atividade muscular.

As células musculares apresentam diversas unidades contrateis finas chamadas sarcômeros, que são formados por filamentos de actina e miosina II. O deslizamento entre esses dois tipos de filamento pode resultar no encurtamento do sarcômero e quando isso ocorre simultaneamente há uma contração muscular. Esse deslizamento ocorre por um mecanismo celular dependente de íons de cálcio e ATP (uma fonte de energia celular). Quando a célula muscular recebe um sinal do sistema nervoso, o concentração de íons de cálcio aumenta no citosol, mudando a conformação de certas proteínas regulatórias que permitem a ligação da miosina II à actina. Consequentemente, um filamento desliza sobre o outro, encurtando o sacômero e contraindo o músculo.

O relaxamento muscular se deve ao desligamento entre os filamentos de miosina II e de actina (em especial das cabeças das miosinas II). Os íons de cálcio são removidos do citosol, algumas proteínas voltam a conformação original e, por fim, actina e miosina II desligam-se entre si. Esse desligamento, entretanto, é ATP-dependente, ou seja, sem energia actina e miosina II permanecem ligados e o músculo permanece contraído.

Pois bem, quando da morte a concentração de cálcio no citosol aumenta, pois as membranas das estruturas que o concentravam (após a remoção do citosol) se tornam permeáveis. Esse aumento muda a conformação daquelas proteínas regulatórias e, assim, actina e miosina II se ligam. Como já dito, a ligação só é desfeita na presença de ATP. Como o ATP não está mais disponível após o óbito, actina e miosina II permanecem ligadas, resultando na condição de rigidez dos músculos. Eis aí o mecanismo que leva ao rigor mortis!

Certo, mas por que a rigidez é desfeita? Essa é mais fácil de responder. Os tecidos, de maneira geral, entram em degradação natural após algum tempo de inatividade do metabolismo. Um dos mecanismos que leva a degradação é o rompimento de vesículas enzimáticas como os lisossomos. Essas enzimas liberadas no meio celular começam a degradar os tecidos, lisando proteínas e outros componentes estruturas das células. Uma vez degradados os componentes dos sarcômeros, os músculos perdem a rigidez anteriormente adquirida. Fica fácil, assim, entender o porquê de as baixas temperaturas prolongaram o rigor mortis: nessa situação, a velocidade das reações é reduzida e, portanto, demandam mais tempo para a degradação dos tecidos.

E assim desmistificamos o rigor mortis!