terça-feira, 5 de outubro de 2010

Algas, o Caso Nakashima e a Ficção

O caso Mércia Nakashima trouxe elementos periciais muito interessantes e ilustrativos quando observados paralelamente às informações exploradas pela ficção. Algumas pessoas, quando assistem à filmes e episódios de seriados envolvendo exames periciais, me perguntam se aquilo é possível. Uma dessas perguntas versava sobre um episódio de Dexter em que algas encontradas em sacos de lixo onde partes de corpo eram mantidas e jogadas no mar poderiam ligar a uma localidade no litoral. Respondi que, dependendo da biologia da espécie de alga (condições necessárias para sobrevivência e endemismo, por exemplo), era possível. Na seqüência, me questionaram se eu conhecia algum caso em que esse tipo de informação biológica sobre algas tivesse sido utilizada. Na ocasião eu disse que não. Hoje a resposta seria diferente.

Dos sapatos de Mizael Bispo de Souza, acusado de matar a ex-namorada Mércia Nakashima, foram coletadas algas do gênero Chaetophora. Segundo Carlos Eduardo Bicudo, pesquisador do Instituto de Botância da Universidade de São Paulo (USP), trata-se de uma alga microscópica que ocorre em baixas profundidades, sendo comum na represa de Nazaré Paulista, onde o corpo foi encontrado. É evidente que tal alga também pode ser encontra em outras localidades, mas o fato de ser comum na represa em que a finada Mércia foi encontrada e estar presente nos sapatos do principal suspeito coloca Mizael no local do crime. (Penso que essa prova individualmente é frágil, mas associada ao conjunto probatório ganha muita importância).

Microorganismos tem um grande potencial forense e é um ramo em ascensão. Algumas aplicações já foram exploradas aqui no CCC (como neste post). Outras são bem documentadas em livros de medicina legal. Num desses relatos literários há referência sobre um cadáver encontrado no mar. Era um cadáver em estado inicial de decomposição e a causa mortis apontava para o afogamento. Ao analisar os pulmões, o perito encontrou água doce e, nela, diatomáceas de ambientes lóticos (águas correntes). Logo, o afogamento não poderia ter ocorrido em ambiente marinho.

Efim, isso reforça que biologia forense, como denominação genérica para a aplicação das ciências da vida às questões de interesse judicial, tem ganhado importância a medida que casos como o Nakashima vêm a tona.

2 comentários:

  1. Seria muito bom se fosse igual aos seriados de TV, os recursos usados para a técnica de investigação médico legal. Mas infelizmente a realidade é outra, mas são casos assim, que mostram que as vezes, por mais que não haja todas as modernidades, o trivial, e a paixão pelo que faz, formam um conjuto probatório perfeito.

    ResponderExcluir
  2. Pois é... isso me lembra que antes de me tornar perito criminal, vivi intensamente a vida acadêmica em uma universidade pública. A rotina de um cientista acadêmico e de um perito criminal tem muito em comum. Ambos respondem a perguntas, trabalham com recursos escassos e sem parafernália adequada, mas com um rigor científico dígno de nota. Isso, pois, ambos usufruem de duas características natas ao ser humano, mas mais apuradas nestes profissionais: a curiosidade e a criatividade.

    (Essas caracterpisticas, alias, justificam o fato de o Brasil, juntamente com a Índia, ser um dos grandes exportadores de cérebros desse mundinho azul e molhado).

    Saudações,

    ResponderExcluir